
O setor de hospitalidade no Brasil vive uma contradição de segurança. Enquanto bancos, varejo e locadoras de veículos aprimoraram suas camadas de proteção por meio da inteligência de dados, os hotéis permanecem como um dos últimos redutos onde a confiança ainda é concedida de forma quase analógica.
O preço dessa vulnerabilidade é alto: um prejuízo potencialmente bilionário que vai desde o estelionato profissional até a destruição física de unidades habitacionais.
O cenário atual revela que a hotelaria se tornou o alvo preferido de duas frentes distintas, mas igualmente danosas.
De um lado, o crime estruturado, que utiliza identidades falsas e cartões clonados para usufruir de estadias de luxo, gerando o temido chargeback que sangra o fluxo de caixa das empresas.
Do outro, o “hóspede problema”: indivíduos movidos por distúrbios, vícios ou má-fé que, sob a proteção da privacidade do quarto, vandalizam o patrimônio e inutilizam inventários inteiros.
O Custo da Interdição e o Risco Operacional
Diferente de qualquer outro negócio, o prejuízo hoteleiro é multiplicado pelo fator tempo.
Um quarto vandalizado não representa apenas o custo do conserto de um móvel ou eletrônico; representa a interdição daquela unidade de venda.
Em períodos de alta temporada, um quarto fora de operação por quatro dias para reformas de emergência pode significar uma perda de receita superior à própria margem de lucro da semana.
Além disso, há o fator humano. Funcionários de recepção e governança lidam diariamente com o desconhecido, muitas vezes sendo os primeiros a enfrentar situações de agressividade e surtos que poderiam ser evitados se houvesse um alerta prévio sobre o perfil de risco associado ao histórico daquele indivíduo.
Inteligência de Dados: O Conceito do Score Comportamental
O mercado hoteleiro começa a convergir para uma solução que já é padrão em outros países: o compartilhamento ético de informações de histórico comportamental.
O conceito, embora lembre o funcionamento de birôs de crédito como SPC e Serasa, possui uma distinção fundamental: o foco não é a capacidade financeira, mas a segurança operacional e a integridade patrimonial.
Enquanto o SPC aponta quem não paga contas, o que a hotelaria exige é um banco de dados que aponte quem coloca em risco o ecossistema.
Nos Estados Unidos e na Europa, redes já utilizam sistemas integrados de Guest Screening (triagem prévia de hóspedes) para barrar o reingresso de indivíduos com histórico de incidentes graves.
No Brasil, a criação de um banco de dados unificado, baseado em CPFs, com registros de incidentes comportamentais relevantes surge como o escudo necessário para profissionalizar o setor.
Evidentemente, qualquer iniciativa dessa natureza pressupõe total aderência à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com critérios claros de finalidade, proporcionalidade e segurança da informação.
A Transição da Correção para a Prevenção Tecnológica
A verdadeira evolução da segurança hoteleira não está no reforço de grades ou no aumento do efetivo de vigilantes, mas na transição do modelo corretivo para o preventivo.
Historicamente, o hotel reage ao dano depois que ele ocorre; a tecnologia de dados inverte essa lógica.
A segurança moderna na hospitalidade é acima de tudo tecnologia preditiva. Ao cruzar informações e identificar padrões de risco no momento da reserva, o gestor deixa de gerenciar prejuízos para gerenciar antecipadamente quem tem permissão para ocupar seus espaços.
É a substituição do “remediar” pelo “prever”.
A Nova Fronteira da Prevenção
A hospitalidade não pode mais se dar ao luxo de ser o elo mais fraco da cadeia de serviços. A prevenção, por meio do cruzamento de dados, não é um movimento de exclusão, mas de proteção à saúde do negócio e à segurança dos bons hóspedes.
O compartilhamento de informações sobre incidentes é a única forma de garantir que a hospitalidade continue sendo um ambiente de acolhimento para muitos, e não um campo de oportunidades para poucos criminosos e vândalos.



